Projeto EntreLaços cria espaço de escuta e acolhimento para quem enfrenta perdas
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- 08-09-2026
“Por trás do meu sorriso, tem tanta coisa.” O desabafo da profissional da área da saúde Lisaura Ferreira, que prefere ser chamada de Saura, traduz a proposta do primeiro encontro do EntreLaços, iniciativa do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), por meio do Núcleo Judicial de Justiça Restaurativa (Nujur), em parceria com o Centro Especializado de Apoio às Vítimas (Ceav). Realizado nesta terça-feira (08/09), no Fórum Clóvis Beviláqua, o encontro teve como tema “Perdas” e reuniu pessoas dispostas a compartilhar experiências, sentimentos e caminhos possíveis diante de situações que deixaram marcas.
Algumas experiências de perda ultrapassam o momento em que acontecem e produzem impactos profundos nas relações familiares, afetivas e sociais. É nesse contexto que surge o EntreLaços: para oferecer um espaço de acolhimento, escuta e diálogo, respeitando a história, o tempo, a autonomia e as escolhas de cada pessoa.
A proposta está fundamentada nos princípios da Justiça Restaurativa, que considera não apenas os danos e impactos vivenciados, mas também as necessidades, os sentimentos, as experiências e os caminhos possíveis de cuidado, reparação e ressignificação.
Foi nesse espaço que Saura encontrou uma oportunidade para falar sobre sentimentos que vinha carregando. Durante dois anos, a servidora enfrentou um período marcado por perdas na família. “Tudo isso deixa a gente em uma angústia muito grande. Se não tivermos coragem e força para enfrentar, acabamos nos perdendo também. A família fica desestruturada e, muitas vezes, a gente não encontra o apoio de que precisa. Hoje, com esse acolhimento, eu saio daqui com mais esperança, renovada”, relata.
Para ela, estar em círculo também significou perceber que a dor não é uma experiência isolada. Ouvir outras histórias ajudou a ampliar o olhar sobre a própria trajetória. “Eu saio daqui renovada. Perceber outras histórias, conhecer outras dores e compartilhar o que a gente sente mostra que não estamos sozinhos. Acho muito importante que esse grupo cresça e que essa possibilidade de acolhimento chegue a outras pessoas.”
A advogada Adriana Barbosa, integrante da Comissão de Justiça Restaurativa, também participou do primeiro encontro. Segundo ela, o momento representou uma oportunidade de cuidado e de construção de novas perspectivas. “Na vida, existem momentos muito desafiadores e, nesses períodos, precisamos encontrar espaços de autocuidado, de escuta e de compartilhamento. Quando contamos nossas histórias e ouvimos as histórias dos outros, conseguimos olhar para a vida com um pouco mais de esperança. O círculo proporciona justamente isso: a possibilidade de falar, ouvir e ressignificar experiências”, conta.
A participação no encontro, segundo Adriana, reforçou a importância de garantir ambientes seguros para quem precisa falar sobre suas dores, sem julgamentos ou respostas prontas.
CONSTRUÇÃO COLETIVA
Responsável por facilitar o primeiro encontro, Andressa Oliveira recebeu com entusiasmo o convite para conduzir a atividade. “Estar em círculo é sempre um privilégio para mim. Acredito que ajudar as pessoas e criar espaços para que elas possam se expressar é uma das grandes potências da Justiça Restaurativa. Por isso, vim de coração aberto e preparei esse círculo com muito cuidado, dando atenção a cada sentimento e a cada pessoa.”
Para a facilitadora, parte da riqueza do trabalho está justamente no que se constrói coletivamente. “A gente entra em um círculo sem saber exatamente o que vai acontecer, mas sabendo que algo importante pode ser construído ali. É uma experiência que transforma não apenas quem participa, mas também quem facilita.”
A coordenadora do Nujur, juíza Jovina d’Àvila Bordoni, destaca que criar um ambiente adequado para falar sobre perdas é uma das contribuições do projeto. “O EntreLaços oferece um espaço de acolhimento, diálogo, conversa e escuta para pessoas que estão vivendo situações de luto e, muitas vezes, não encontram um lugar onde possam expressar sua dor e seus sentimentos. A Justiça Restaurativa trabalha justamente com essa perspectiva de inclusão: criar um ambiente em que as pessoas possam dizer o que estão sentindo, ouvir experiências semelhantes e refletir sobre o que estão vivendo.”
Segundo a magistrada, esse processo pode ajudar cada participante a encontrar novos sentidos e possibilidades diante da experiência vivenciada. “Não se trata de oferecer respostas prontas, mas de possibilitar que cada pessoa, respeitando seu próprio tempo e suas escolhas, encontre caminhos para seguir.”
OUTRAS FORMAS DE PERDA
Embora frequentemente associado à morte, o luto também pode surgir diante de desaparecimentos, afastamentos, rupturas de vínculos, adoção, violência ou perda de referências afetivas e familiares. É justamente por reconhecer a diversidade dessas experiências que o EntreLaços propõe um espaço aberto à escuta e ao diálogo, sem estabelecer um único modo de vivenciar ou superar uma perda.
Ao final do encontro, Saura, que chegou carregando suas dores, deixou a sala com outro sentimento. “Se existe uma palavra para definir o momento de hoje, é gratidão. Estou saindo daqui renovada, sentindo uma paz que ainda não havia sentido. Eu não vou desistir da luta. Pelo contrário: saio daqui com mais força para lutar.”
CUIDADO E PROTEÇÃO
A atuação conjunta do Ceav e do Nujur busca fortalecer uma rede de cuidado e proteção, com encaminhamentos realizados com responsabilidade, atenção e sensibilidade.
A parceria entre os setores teve início em outubro de 2025, quando foram realizados três círculos de construção de paz, com a participação de 11 pessoas. A partir dessa experiência, a atuação conjunta passou a incorporar ao cuidado oferecido pelo Ceav outras possibilidades de escuta e acolhimento baseadas nos princípios da Justiça Restaurativa.
A proposta valoriza a participação e o protagonismo das pessoas na construção dos próprios caminhos, considerando os danos e impactos vivenciados, as necessidades individuais, os sentimentos e experiências relacionados à situação, as responsabilidades envolvidas e as possibilidades de cuidado, reparação e ressignificação.
PRÓXIMOS ENCONTROS
O EntreLaços terá novos encontros nos dias 22 de setembro, 6 e 20 de outubro, 3 e 17 de novembro. Pessoas interessadas em participar ou obter mais informações podem entrar em contato com o Nujur, pelo telefone (85) 3492-8136 / 3108-2310 (ligações e WhatsApp) ou pelo e-mail nujur@tjce.jus.br. Também é possível procurar o Ceav pelo telefone (85) 3108-0107 (ligações e WhatsApp) ou pelo e-mail for.ceav@tjce.jus.br



