“Entre Linhas”: Justiça participa de projeto que dá autonomia financeira a vítimas de violência doméstica por meio da costura
- 346 Visualizações
- 15-04-2026
Trabalho artesanal em que uma peça inteira é construída a partir de retalhos — pedaços de tecido descartados pela indústria da moda — o patchwork será, para mulheres vítimas de violência doméstica, a oportunidade de costurar uma existência de força, autonomia e autoestima. “Eu quero estar forte. Mais do que eu sempre acho que estou e mais do que eu acho que não estou. Eu quero ter estabilidade financeira, quero ter autonomia”, declarou Nara Georgia, atriz e cenografista contemplada com o projeto Entre Linhas, fruto de parceria entre o Tribunal de Justiça do Ceará, por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, o Fórum Nacional de Juízas e Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra Mulher e a Universidade de Fortaleza (Unifor).
Ao longo das próximas sete semanas, ela e mais 19 assistidas pela Casa da Mulher Brasileira terão acesso à capacitação gratuita em corte e costura no âmbito da iniciativa. Ao longo deste ano, serão ao todo 40 mulheres contempladas com ensinamentos que vão desde o funcionamento e os tipos de máquinas de costura, passam pelas técnicas de patchwork e podem chegar à execução e itens de vestuário.
A ideia é que a partir desse aprendizado as alunas possam desenvolver trabalhos para empresas de moda ou ainda empreender na área. O projeto contará com duas turmas em 2026, cada uma delas com 20 participantes encaminhadas pela Casa da Mulher Brasileira, por meio do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza.
A juíza Rosa Mendonça, titular do 1º Juizado, lembrou que infelizmente um dos motivos que fazem com que a vítima permaneça em um ambiente de violência é a dependência econômica. Nesse contexto, ela ressaltou o trabalho da Justiça não apenas pela via punitiva, mas pela promoção de ações como o projeto. “Quando a mulher sabe que vai ter o trabalho e o dinheiro dela, que não vai depender financeiramente daquele homem, ela fica apta a abandonar aquele ciclo de violência”, destacou nessa terça-feira (14/04), durante o evento na Unifor.
A estudante universitária Alexandra Oliveira, participante do curso, compartilhou sobre o sentimento de dependência financeira em uma situação de violência doméstica. “Eu estudei muito sobre a dependência econômica quando fui vítima de violência. Eu não imaginei que eu fosse passar por isso, nenhuma mulher imagina. Viver nesse ciclo, não ter uma renda, ser impedida de trabalhar ou estudar, porque o abusador muitas vezes faz isso, e depois conseguir entrar em um projeto desses muda totalmente a vida e faz com que a gente seja referência para outras mulheres. É poder dizer: ‘olha, eu também passei por isso! Eu consegui. Eu superei. Estamos juntas!’”, expressou.
ALINHAVANDO TÉCNICA, APRENDIZADO E ACOLHIMENTO
A coordenadora dos cursos de Moda da Unifor, Priscila Medeiros, corroborou que o objetivo do curso é preparar as participantes para o empreendedorismo ou inserção no mercado de trabalho, seja na costura criativa (confecção de bolsas, acessórios e afins) com o patchwork ou na produção de peças de vestuário. “Nosso intuito é prepará-las com todas as técnicas e ferramentas para elas se desenvolverem na aprendizagem da costura”, afirmou. Na primeira aula, as participantes ouviram explicações sobre a dinâmica do curso, tipos de tecidos, tamanhos e tipos de agulhas e suas usabilidades, composições das linhas e maquinário a ser utilizado na produção das peças.

A chefe da Divisão de Responsabilidade Social da Unifor, Maely Borges, reforçou que o curso foi modelado de maneira a permitir que as vítimas se sintam à vontade durante as aulas, potencializando o viés de acolhimento da iniciativa. “Esse modelo de turma fechada conta apenas com participantes encaminhadas pela Casa da Mulher Brasileira, de uma forma que essas mulheres se sintam seguras. Nós sabemos que nesses momentos elas acabam dividindo suas próprias histórias umas com as outras na sala de aula”, pontuou.
Além de contribuir com a articulação do projeto, o Tribunal de Justiça também efetuou o repasse de tecidos coletados em pontos de doação nas edificações do Poder Judiciário cearense. A iniciativa contou ainda com a parceria da Santana Textiles, que forneceu gratuitamente tecidos para a confecção de produtos pelas participantes do projeto, e com o Sindiônibus, que custeou a passagem de ônibus das alunas para que as alunas possam comparecer às aulas.



