TJCE apresenta projeto de acolhimento para familiares de pessoas desaparecidas
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- 25-08-2026
O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) apresentou, nesta terça-feira (25/08), o Projeto “EntreLaços” a famílias que vivenciam a dor do desaparecimento de entes queridos. O encontro foi realizado na Cidade da Criança, no Centro de Fortaleza, espaço que se tornou símbolo da mobilização de familiares em busca de respostas sobre parentes desaparecidos.
Desenvolvido pelo Núcleo Judicial de Justiça Restaurativa (Nujur), em parceria com o Centro Especializado de Apoio às Vítimas (Ceav), o projeto cria espaços de escuta, diálogo e suporte psicossocial, fundamentados nos princípios da Justiça Restaurativa. A proposta busca oferecer acolhimento, fortalecer redes de cuidado e contribuir para a ressignificação das experiências vivenciadas por pessoas em situação de luto, desaparecimento, rupturas de vínculos e outras perdas significativas.
A coordenadora do Nujur, juíza Jovina d’Ávila Bordoni, destacou que o Projeto surgiu para ampliar os espaços de acolhimento destinados a quem convive com a dor da ausência de um ente querido. “Não podemos mudar a realidade vivida por essas famílias, mas podemos oferecer um espaço de escuta e acolhimento. Quando compartilhamos nossas dores e experiências, fortalecemos a nós mesmos e aos outros. Muitas vezes, a vivência de uma pessoa toca e inspira outra, ajudando a dar novos sentidos à vida. A ideia do EntreLaços é justamente oferecer esse espaço de acolhimento, para que as pessoas possam conversar sobre suas perdas”, explicou.
Durante o encontro, a supervisora operacional do Centro Especializado de Apoio às Vítimas (Ceav), Yane Machado, apresentou os serviços disponibilizados pelo Centro para ajudar as famílias a lidarem com os impactos emocionais causados pelo desaparecimento de entes queridos.
“No Ceav oferecemos atendimento psicossocial, acompanhamento psicológico individual e encaminhamentos para outros serviços da rede pública, de acordo com as demandas de cada pessoa. Com a parceria com o Nujur e o Projeto EntreLaços, buscamos ampliar esse acolhimento às famílias que vivenciam a dor do desaparecimento de entes queridos”, afirmou.
Para a supervisora do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas (NDHAC) da Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE), defensora pública Mariana Lobo, iniciativas como o EntreLaços são fundamentais para aproximar as instituições das famílias de pessoas desaparecidas e fortalecer a rede de apoio disponível. “Essas famílias passam por um processo de luto e pela angústia de muitas vezes não saber o que aconteceu com o seu familiar. Momentos como esse são importantes para fortalecer a rede de apoio e assistência, aproximar as instituições dessa realidade e contribuir para o fortalecimento e o empoderamento desses familiares”, frisou.

A defensora ainda destacou os avanços promovidos pela Resolução nº 634/2025 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece diretrizes para o atendimento e apoio aos familiares de pessoas desaparecidas, reconhecidos pela norma como vítimas indiretas.
O assessor do Programa para Pessoas Desaparecidas e Suas Famílias do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no Ceará, Daniel Mamede, destacou a importância de manter o foco nas necessidades dos familiares afetados pelo desaparecimento de pessoas.
“Como uma organização neutra, imparcial e independente, estamos sempre preocupados com o olhar das famílias e das pessoas diretamente afetadas pelo desaparecimento. Por isso, apoiamos iniciativas que fortalecem esses grupos para que possam incidir na construção de políticas públicas adequadas às suas necessidades. O objetivo é fortalecer mutuamente as famílias por meio dessa atuação coletiva”, enfatizou.
A iniciativa ainda reuniu representantes de instituições que atuam no enfrentamento ao desaparecimento de pessoas e no atendimento às famílias, que também são integrantes do Coletivo Aparece (Apoio a Parentes e Amigos de Pessoas Desaparecidas), entre elas a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce), a Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas de Fortaleza, o Ministério Público do Ceará (MPCE), por meio do Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência (NUAVV) e do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID).
ACOLHIMENO E ESPERANÇA
Mãe de uma jovem desaparecida há 34 anos, Vera Ranu, ativista e representante do Movimento Nacional de Famílias de Pessoas Desaparecidas no Brasil, compartilhou sua história de luta para a articulação entre família e instituições responsáveis pela investigação, acolhimento e apoio às vítimas indiretas do desaparecimento.

Vera lembrou que o desaparecimento de uma pessoa afeta toda a estrutura familiar e deixa marcas que podem durar décadas. Segundo ela, além da busca por respostas, os familiares precisam lidar com traumas, inseguranças e mudanças profundas na rotina, o que reforça a importância de iniciativas de acolhimento e fortalecimento da rede de apoio.
“A família se torna tão abalada com a situação que os impactos atingem todos ao redor. São traumas que permanecem por muitos anos. Por isso, é fundamental que os familiares sejam ouvidos e participem da construção das políticas voltadas ao desaparecimento de pessoas. Eu criei meus filhos sentados na escadaria da Praça da Sé, segurando o cartaz da minha filha. Foram anos de busca e de luta que marcaram toda a nossa família”, relatou.
Aos 84 anos, a senhora Maria Áurea segue na busca por respostas sobre o desaparecimento do irmão, visto pela última vez em 2014, aos 65 anos. Desde então, a família percorreu delegacias, hospitais, casas de repouso e institutos de medicina legal em busca de informações.
COMPARTILHAR A DOR É COLOCAR BÁLSAMO NAS FERIDAS
Dona Áurea também está entre as fundadoras de um movimento de apoio a familiares de pessoas desaparecidas no Ceará, o “Mulheres de Fé com Esperança”, criado inicialmente por três famílias que se uniram para compartilhar a dor e fortalecer a luta por respostas. Ela relembra que os primeiros encontros de familiares de pessoas desaparecidas surgiram a partir de uma iniciativa de uma emissora de televisão local, que abriu espaço em seu telejornal para a divulgação de fotos e informações sobre os desaparecidos.

Mesmo enfrentando problemas de saúde e sucessivas perdas familiares ao longo dos anos, ela afirma que encontra forças para continuar mobilizada pela causa. “Eu não sei como foi que eu fiquei de pé até hoje. Passei pela perda de um neto que criei, depois do meu esposo, da minha mãe e ainda pela falta do meu irmão. Mas existe uma força dentro de mim, uma vontade de seguir e lutar mais ainda do que já lutei. Esse movimento não pode parar. Quanto mais gente vier, mais união e mais força nós teremos”, avalia.
Uma das envolvidas na criação do coletivo, Cleide Santiago, de 76 anos, lembra que participou dos primeiros encontros de familiares realizados na Cidade da Criança e no centro da cidade, onde passou cinco anos comparecendo semanalmente em busca de informações. Ao longo desse período, enfrentou trotes, falsas pistas e inúmeras frustrações, mas nunca desistiu da procura.
Para ela, a incerteza sobre o paradeiro do irmão mantém a família em um luto permanente, marcado pela ausência de respostas e pela esperança de um reencontro. “Eu acho que esse luto a gente vive até hoje, porque não sabe se ele está morto ou vivo. Ninguém tem notícia. Eu vou procurar meu irmão até quando eu puder, até não conseguir mais fazer nada por ele. Enquanto eu tiver vida e saúde, vou continuar nessa busca”, disse.
Também fundadora do coletivo, Lucila Maria França da Costa conta que o apoio mútuo tem sido fundamental para enfrentar a dor da ausência do irmão que desapareceu há 14 anos. Para ela, o Projeto EntreLaços pode fortalecer a rede de apoio já construída entre os familiares de pessoas desaparecidas, oferecendo mais acolhimento e suporte emocional. “O grupo é muito importante. É como uma família. A gente se reúne, recebe apoio e se sente em casa. E esse projeto do TJCE também será maravilhoso, muito bom para nós”, reconhece.
Para Flaviana Cordeiro, 53, que procura pelo irmão desaparecido desde 2008, o Projeto EntreLaços representa uma oportunidade de acolhimento e apoio para familiares que enfrentam a dor do desaparecimento. Ela destacou que iniciativas como essa são importantes especialmente para quem encontra dificuldades para acessar atendimento psicológico e precisa de um espaço seguro para compartilhar experiências e receber orientação.

“Eu acho ótimo, porque muitas vezes quem depende de atendimento gratuito de psicólogo enfrenta dificuldades para conseguir e acaba desanimando. Então esses encontros representam acolhimento. Quando a gente participa desses encontros, como acontece aqui no grupo de mulheres, é para compartilhar essa dor e também receber apoio e orientação”, pontuou.
O Projeto EntreLaços terá início no próximo dia 8 de setembro, no Nujur, localizado no Setor Verde, Nível 4, Sala 405 no Fórum Clóvis Beviláqua (FCB). Ao todo, serão seis encontros quinzenais, dedicados ao acolhimento, à escuta e ao fortalecimento de familiares que convivem com a dor do desaparecimento de entes queridos.



