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Literatura e toga: as duas faces de Durval Aires Filho

Publicado em: 10-06-2019

O conto “Naus Frágeis”, do desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, Durval Aires Filho, foi um dos vencedores do I Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados. O anúncio foi feito dia 23 de maio e a entrega da premiação ocorrerá no próximo mês de setembro, em Brasília.

“Estou feliz de estar entre os primeiros. Demonstra que estou no caminho certo. Além disso, me incentiva a produzir não só textos jurisprudenciais, mas também literários”, disse o magistrado, que é autor de sete livros, sendo dois literários e cinco na área do Direito.

Sobre o conto premiado, explicou que a ideia surgiu a partir de uma série de dez crônicas que escreveu para o jornal Diário do Nordeste, que trata dos navios que afundaram na Praia do Mucuripe, em Fortaleza. A cada 15 dias, Durval escreve uma crônica para o jornal, que é publicada na Editoria de Opinião, aos domingos.

O MAGISTRADO E O ESCRITOR
Aos 64 anos e com vigor de juventude, Durval Aires já soma 33 anos como magistrado de carreira, tendo ingressado no Judiciário em 1986, por meio de concurso público. A rotina de desembargador, lidando diariamente com questões complexas que envolvem o direito e a vida das pessoas, muitas vezes tornam a mente de um magistrado muito analista porque é focada durante anos apenas no estudo e aplicação da lei.

Durval, no entanto, foge a essa regra pela sua versatilidade, pois nem a carreira jurídica exercida por mais de três décadas fez cessar sua veia literária. Ao contrário, sempre esteve presente, paralelamente, às funções de juiz. “Para mim, o Direito e a Literatura se complementam porque a palavra é o alicerce de ambos. A palavra é ligadura que entre esses dois universos, que aprendi a amar.”

De acordo com ele, o Direito é mais fácil porque o fazer jurídico tem uma referência. É necessário recorrer aos códigos e jurisprudências. “É um trabalho científico, você se manifesta dentro de determinados limites, diferentemente da literatura que é arte, em que a mente deve ser livre para criar, inovar, refazer e, exatamente por isso, é muito mais difícil.” Apesar de sua complexidade, Durval admite que “não viveria sem a Literatura. Ela faz parte da minha vida. É uma paixão.”

Como o tempo é escasso, recomenda método eficaz e disciplinado para produzir textos. “Todos dias separe uma hora para escrever. Tem dias que você está inspirado e produz mais; outros dias, menos. Mas o que importa é disciplina do exercício de fazer. Assim, ao final de um ano, terá muito material para seu livro.”

O PAI COMO REFERÊNCIA
Durval Aires Filho criou o gosto pelas letras com o pai, o jornalista Durval Aires, que trabalhou nos jornais O Povo e Diário do Nordeste, da década de 60 ate 80. “Meu pai sempre foi uma referência pra mim. Quando criança lembro dele chegando em casa com os jornais Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo debaixo do braço. Na adolescência sempre conversávamos muito, especialmente à noite após ele chegar do trabalho. Falávamos sobre política, economia. Adorávamos filmes, era tudo muito prazeroso.” Durval, o pai, escreveu também várias obras, entre elas “Os amigos do governador” (1967), “Barra da Solidão” (1968) e “Estrela da Manhã” (1983).

Aos 19 anos, Durval Filho trabalhava como freelancer do jornal O Povo escrevendo para caderno cultural, publicado aos domingos, período em que entrevistou escritores, artistas (entre eles Belchior), embaixadores e cientistas. Exerceu essa atividade por dois anos. “Foi uma época muito agradável e de grande aprendizagem, porque iniciava Direito na Universidade Federal do Ceará e ao mesmo tempo tinha a oportunidade de entrevistar grandes personalidades do Ceará e do Brasil”.

Inicialmente, ele pensou em fazer faculdade de Comunicação Social, mas o pai o orientou a fazer Direito, com a ressalva de que poderia fazer Comunicação como uma segunda graduação, pois à época grandes jornalistas eram bacharéis em Direito. “Não me arrependo. Fiz a coisa a certa. Sou muito grato ao meu pai pelo conselho. Hoje sou muito feliz transitando entre esses dois mundos: Direito e Literatura, cuja essência é a palavra, que aprendi a respeitá-la e a persegui-la durante toda minha vida”.

MEMBRO DA ACL
O talento literário rendeu-lhe, em 2015, a cadeira de nº 40 da Academia Cearense de Letras (ACL), mediante eleição entre vários candidatos. Para registrar os momentos vivenciados com os demais colegas escritores da Academia, instituição mais antiga do gênero no país (fundada em 1894), Durval criou o blog “O Quintal”. Além desse, tem o blog “Clareiras”, que escreve sobre assuntos mais variados.

As principais obras literárias do desembargador são “Onze Contos Reais” (2015) e “O Homem do Globo e Outros Contos” (2008). Na área jurídica, escreveu os livros “As 10 Faces do Mandado de Segurança (2ª edição -2002)”, “Corrida Eleitoral: Limites Atuais da Propaganda (2003)”, “Mandado de Segurança em Matéria Eleitoral (2002)” e “Direito Público em Seis Temas Teóricos Relevantes e Atuais”(2014).

O PRÊMIO
Realizado pela Associação de Magistrados Brasileiro (AMB), em parceria com a Academia Paulista de Letras (APL), o concurso literário teve a participação de 141 magistrados do país. No total, foram encaminhadas 59 poesias, 45 contos e 37 crônicas. O primeiro, o segundo e o terceiro lugar de cada categoria receberão, respectivamente, R$ 2 mil, R$ 1,5 mil e R$ 1 mil. As obras vencedoras serão reunidas em um livro a ser publicado pela AMB, ainda neste ano, em comemoração ao aniversário de 70 anos da Associação.

Os vencedores da I edição do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados foram anunciados durante abertura do VII Encontro Nacional de Juízes Estaduais (Enaje), em Foz do Iguaçu, no Paraná. Eles receberão os prêmios entre 10 e 13 de setembro, em Brasília. Clique aqui para conhecer os vencedores.