Visibilidade trans ganha destaque na Justiça estadual com realização de roda de conversa no Fórum Clóvis Beviláqua
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- 05-02-2026
Para além de uma data no calendário, a visibilidade trans deve ser afirmada diariamente como uma oportunidade de enxergar realidades e construir novas atitudes, como uma forma de respeito e valorização à vida. Celebrado em janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans simboliza a luta dessa população por reconhecimento e garantia de direitos em todos os espaços.
Em alusão à data e reforçando a cultura de inclusão e acolhimento à diversidade, o Espaço de Convivência da Servidora e do Servidor do Fórum Clóvis Beviláqua (FCB) tornou-se, nesta quarta-feira (04/02), um ambiente de reflexão e diálogo. O encontro reuniu convidadas(os), servidoras(es) do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), além do público externo, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre o tema “Visibilidade Trans no Judiciário: Ver para Garantir Respeito e Direitos”.
“A visibilidade não pode se resumir apenas a chamar atenção da sociedade, mas se construir, diariamente, políticas públicas efetivas, oportunidades de trabalho, de educação, de formar famílias e de mostrar que essas famílias existem e que pessoas trans são produtivas e úteis à sociedade. Momentos como este nos enche de esperança de que dias melhores virão”, destacou Silvinha Cavalleire, presidenta nacional da União Nacional LGBT (UnaLGBT). Ela mediou o momento, que contou com roda de conversa, esclarecimento de dúvidas, troca de experiências, reflexões, e expressões artísticas.
Ao abrir o encontro, a vice-diretora do FCB, juíza Daniela Lima da Rocha, ressaltou a importância do momento como uma oportunidade de ouvir a história da(o) outra(o) e, assim, ser capaz de se reconhecer a partir dela. “Todas e todos temos nossas histórias particulares. Mas, para entendermos a nossa humanidade, precisamos nos respeitar, e só fazemos isso quando compreendemos a necessidade do outro. Por isso, estamos aqui hoje para ouvir essas histórias, que vêm acompanhadas de muita luta por uma existência digna.”

Durante o diálogo, foram abordados desafios que atravessam a vivência transgênera, a importância do esclarecimento sobre as diferentes identidades e as múltiplas formas de expressão, bem como o papel das instituições na promoção de ambientes mais inclusivos.
Contribuindo para desmistificar conceitos relacionados à população LGBTQIAPN+, Vida Victória, primeira-secretária da Associação de Travestis e Mulheres Transexuais do Estado do Ceará (Atrac) conta que “muitas pessoas ainda têm, por exemplo, dúvidas sobre a diferença entre ser transexual e ser travesti. Eu digo ‘nenhuma’. O que muda é a forma como esses termos foram construídos historicamente. Muitas travestis foram expulsas de casa, impedidas de concluir os estudos e privadas do direito de viver plenamente, e isso se perpetua socialmente como marginalidade. Hoje, muitos resgatam o termo ‘travesti’ como um ato político, para romper com esse lugar que a palavra não deve ocupar”.
A programação também destacou a importância da representatividade e da ocupação de espaços como um caminho para a transformação cultural. Bernardo Nathaniel, presidente do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade no Ceará (IBRAT), ressaltou como, ao longo dos anos, o acesso a referências trans têm ampliado horizontes e fortalecido trajetórias. “Na minha época, eu não tinha muitas referências de pessoas trans. Hoje, basta pesquisar e muitas histórias aparecem. Isso faz com que a gente consiga olhar e pensar: é possível. E as pessoas precisam se acostumar a vê-las cada vez mais em espaços de poder.”
Davizona, pessoa não-binária e integrante da UnaLGBT, reforçou, ainda, a luta diária por direitos básicos. “É comum o discurso sobre o uso de banheiros pelas pessoas trans. Algumas pessoas tentam justificar preconceitos usando casos criminosos de indivíduos que se travestem de mulher para cometê-los. Mas quando esse argumento aparece é preciso lembrar: o problema não está nas travestis, elas estão lá pois é o lugar delas”, pontuou.
GARANTIA DE DIREITOS
Servidor do TJCE lotado na Seção de Arquivos, Landolfo Xavier afirmou que iniciativas como essa possibilitam aperfeiçoar o seu trabalho no âmbito do serviço público. “Esse não é um momento de inclusão deles, é nosso, de nos incluirmos no mundo deles. E para nós do Judiciário, não basta oferecer apenas um degrau, é preciso construir uma escada para que essas pessoas possam alcançar o que desejam.”

“Ter essa aproximação do Poder Judiciário cearense em querer entender um pouco mais sobre o que é o movimento LGBTQIAPN+, os movimentos sociais e discutindo sobre essa população estigmatizada na perspectiva também do olhar da justiça, é fantástico”, acrescentou Narciso Júnior, coordenador especial da Diversidade Sexual de Fortaleza.
RESISTIR HOJE E CONSTRUIR O AMANHÃ
Integrando a programação, Dara Raquel, mulher trans e auxiliar no Fórum Clóvis Beviláqua (FCB), realizou uma apresentação musical com a interpretação da canção “Balada de Gisberta”, na voz de Maria Bethânia. A música, que se tornou um hino contra a intolerância, narra a história de Gisberta Salce, mulher trans brasileira vítima de violência.
“Essa canção tem uma importância imensa para a nossa vida, enquanto população trans. É uma honra estar aqui, porque, de certa forma, todas somos Gisberta. Seguimos lutando e persistindo por nossa existência”, reconheceu Dara.
Como um olhar de esperança para o futuro, Mariana Saylla, estudante do primeiro semestre de Direito, compartilha a felicidade de participar do evento. Para ela, ouvir pessoas com vivência e propriedade no assunto ampliou sua compreensão sobre o tema. “Como uma estudante que acabou de entrar no ensino superior, esse momento é fundamental. E não só dentro do meio jurídico, mas também no acadêmico, para onde vou levar, estudar e refletir sobre o papel do Direito na garantia de dignidade e reconhecimento das pessoas trans.”



