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Entre Pastas e Memórias: Os primeiros passos da Escola Superior da Magistratura do Ceará

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Nome da jornalista Nara Santos em uma arte da cor azul

 

 

Imagem de uma arte na cor azul, com uma frase do texto em destaque

 

 

O dia 17 de julho de 1986 não foi apenas mais uma data no calendário do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). Foi o momento em que a lei nº 11.203 oficializou a criação da Escola Superior da Magistratura do Ceará (Esmec), um projeto que nasceu para promover a especialização e o aperfeiçoamento contínuo da magistratura estadual diante dos desafios jurídicos locais e nacionais.

O regimento interno, aprovado pelo Pleno do TJCE dois anos depois, em 1988, deu forma administrativa e pedagógica à Escola. O documento reforçava que sua missão ia além da transmissão de conhecimento técnico, buscando visão crítica da ciência jurídica e sensibilidade para os problemas sociais.

Ainda sem sede própria, a Esmec funcionava dentro do prédio do TJCE, ocupando três salas com capacidade para 60 pessoas cada, além de um espaço destinado a projeções de filmes de temas do Direito.

Em 20 de outubro de 1988, a Escola teve sua aula inaugural com a abertura do I Curso de Aperfeiçoamento e Direito Processual Civil, em colaboração com o Instituto Brasileiro de Aperfeiçoamento de Estudos Jurídicos (IBAEJ), de São Paulo, ministrado por uma equipe de professores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Nesse período, a Escola desenvolvia um amplo programa de qualificação para a magistratura com as atualizações do mundo jurídico através de cursos e seminários especiais, que também proporcionavam às servidoras e aos servidores do TJ oportunidade de treinamento por meio de parceria com o Departamento Central de Recursos Humanos do TJCE.

Em 1995, a Escola promoveu o primeiro Curso de Aperfeiçoamento voltado especificamente à magistratura, sua atribuição principal, que contou com a parceria da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fundação Paulo Bonavides e Governo do Estado.

 

Foto antiga com várias pessoas sentadas em uma sala grande
Sem sede própria, a Escola tinha três salas no prédio do TJCE, cada uma com capacidade para 60 pessoas

 

As(os) primeiras(os) discentes enfrentaram os desafios típicos de um projeto em fase inicial, marcado por recursos limitados, infraestrutura modesta e aulas predominantemente expositivas.

Para a juíza Vanessa Maria Quariguasy Pereira Veras, titular da 9ª Vara Criminal de Fortaleza, que havia ingressado há dois anos na magistratura cearense quando participou do curso, a experiência representou um momento de amadurecimento profissional e troca de saberes.

“Havia muitas expectativas, pois chegávamos nas comarcas ainda muito inexperientes. Além disso, o acesso à informação era bem mais limitado. Nossas fontes de pesquisa eram baseadas na consulta ao livro ou em repertórios de jurisprudências de publicações periódicas. Então o curso proporcionava, além do conhecimento, a oportunidade para a troca de experiências com os colegas”, lembra.

A magistrada, que atualmente preside a Comissão Permanente de Avaliação Institucional (CPAI) da Esmec, faz um comparativo entre as condições da Escola em seus primeiros anos e a realidade atual. Ela observa que o cenário das aulas era muito diferente da estrutura confortável e equipada disponível hoje, com auditório, salas de aula adequadas e materiais específicos para cada módulo ou curso.

Destaca também que, ao longo do tempo, a Esmec construiu uma trajetória sólida e sensível às demandas formativas da magistratura, superando os desafios dos primeiros tempos para proporcionar um ensino mais efetivo, com foco ampliado na prática, porém sem deixar de valorizar a base teórica que sustenta a formação jurídica. “A Esmec tem desenvolvido uma trajetória fascinante, muito rica e sempre atenta às necessidades formativas e profissionais dos magistrados”, afirma a magistrada.

 

AVANÇO ESTRUTURAL E ACADÊMICO

 

A transição de uma estrutura embrionária para uma instituição com sede própria e autonomia acadêmica foi um processo gradual. Em 15 de janeiro de 1999, a Esmec passou a ter sede própria, distante aproximadamente cinco quilômetros do Tribunal de Justiça.

O espaço, com 1.972 m² de área construída, contava com cinco salas de aula, biblioteca e o amplo auditório, espaços que foram sendo ocupados pelas diversas atividades desenvolvidas pela Escola. Além disso, contava com salas administrativas, livraria, quatro instalações sanitárias para discentes e visitantes.

Nesse período, todos os cursos, seminários e eventos para magistradas(os) e servidoras(es) dependiam da coordenação ou interferência direta da Escola, que continuou administrando, a distância, os cursos executados pelo Setor de Treinamento do Departamento Central de Recursos Humanos do Tribunal, pelo Centro de Treinamento Intensivo (CTI) do Fórum Clóvis Beviláqua (FCB) e por alguns polos, instalados em sedes de comarcas interioranas.

 

Arte na cor branca para destacar uma frase na cor preta

 

Logo depois houve redistribuição de funções. O Setor de Treinamento do Departamento de Recursos Humanos do Tribunal de Justiça passou a organizar, executar e coordenar as atividades de treinamento destinadas a servidoras(es) técnicos e administrativos (excluindo apenas a magistratura) e o FCB também passou a realizar treinamento para as(os) suas(seus) servidoras(es) por meio do CTI.

Para ofertar seus primeiros cursos de pós-graduação, a Esmec firmou parcerias com instituições como a UFC e a UVA. A partir de 2006, houve ampliação do público-alvo, com a inclusão de servidoras e servidores do TJCE nas ações formativas da Esmec, contribuindo para a formação e qualificação de todo o corpo funcional do TJ.

Em 2008, a Escola alcançou um marco significativo ao conquistar autonomia acadêmica para emitir certificados com chancela própria, após credenciamento pelo Conselho Estadual de Educação (CEE). Nesse mesmo período, foi criado o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE), com o objetivo de auxiliar a direção e a coordenação da Esmec na adoção das deliberações relacionadas com a atividade pedagógica, especialmente como instituição habilitada para ofertar cursos de pós-graduação lato sensu.

Entre 2009 e 2010, a Esmec passou por reestruturação interna da secretaria, criando duas importantes comissões: A Comissão Permanente de Avaliação de Magistrados (CPAM) e a Comissão Permanente de Avaliação Institucional (CPAI). Desde então, essas comissões têm fortalecido o trabalho da Escola ao produzir relatórios diagnósticos e consolidar dados das avaliações aplicadas nos cursos, tanto diagnósticas quanto de reação.

Outro passo importante para o fortalecimento acadêmico da Escola foi sua integração à Rede Estadual de Escolas de Governo do Ceará, iniciativa que articula instituições públicas com a finalidade de promover a troca de experiências, estimular a construção coletiva de conhecimento e fortalecer as políticas de formação permanente dos servidores.

Em 2010, a Esmec entregou seus primeiros certificados com chancela própria e ofertou os primeiros cursos de aperfeiçoamento em EAD para magistrados, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam).

 

Sala ampla com várias cadeiras azuis
Além das salas, a Esmec tinha um espaço destinado a projeções de filmes sobre temas do Direito

 

A Esmec tem fortalecido suas parcerias e ampliado a colaboração com a Enfam. Com isso, intensifica suas ações e diversifica a oferta de cursos e oportunidades de aprendizagem, alcançando magistradas(os) e servidoras(es) tanto da capital quanto do interior. O uso da tecnologia tem permitido democratizar o acesso, especialmente para quem atua em comarcas mais distantes, que são alcançadas também pelos Polos de Aprendizagem.

Atualmente, após passar por reforma e ampliação dos seus espaços, que conta agora com mais duas amplas salas de aulas, a Escola segue recebendo a magistratura, as(os) servidoras(es) e o público externo em variadas atividades acadêmicas, artísticas e culturais desenvolvidas no âmbito da Escola.

 

MEMÓRIA VIVA

 

A história da Escola não se limita aos registros e documentos. Ela reside também nas lembranças de quem acompanhou a estruturação da casa. A servidora Euwláudia Figueiredo Fontenele, que está há quase 24 anos na Esmec, celebra o tempo dedicado à Escola. “Estou quase comemorando bodas de prata com a Esmec. Em junho de 2002 eu vim para a Esmec, e daqui eu não saí mais”, conta.

Ao localizar as pastas antigas dos primeiros cursos da Escola, a servidora relembra que todo o trabalho passava pelo papel: desde as inscrições até as listas de concluintes dos cursos. Ela conta que as inscrições dos eventos eram realizadas por telefone, e os nomes dos participantes eram organizados manualmente em listas, que depois eram digitadas e impressas para controle. Cita ainda que os recursos disponíveis eram bastante limitados, e utilizavam um projetor emprestado pelo Tribunal de Justiça. Um dos momentos mais marcantes, segundo ela, foi a aquisição dos primeiros cinco datashows da Esmec, que ela fez a retirada pessoalmente, lembrando a grande satisfação daquele dia.

Personagens fundamentais dessa história continuam a dar voz aos documentos guardados por tanto tempo. Juntos, eles ajudam a narrar a evolução da instituição. Para esses servidores, revisitar o arquivo é reencontrar capítulos fundamentais de suas próprias trajetórias profissionais, entrelaçadas ao crescimento da magistratura cearense.

O servidor Flávio José Moreira Gonçalves está na Esmec há duas décadas, e diz, com satisfação, ter testemunhado diretamente a evolução estrutural e acadêmica da Escola. “Sinto-me muito feliz como servidor da Esmec e do TJCE ao observar todos estes avanços e progressos indiscutíveis que a Escola fez ao longo de todos estes anos, fruto dos esforços de tantos e tantas”.

 

Arte na cor azul para destacar uma frase na cor branca

 

Hoje, como editor-adjunto da Revista Themis, periódico semestral da Esmec que foi lançado em 1997, ele traz à memória o esforço daquelas(es) que, enfrentando incompreensões e resistências, lançaram as bases da Esmec, estruturando seus alicerces e projetando seus primeiros cursos.

Ele ressalta o trabalho incansável de formadores em uma época em que a Escola era apenas um projeto funcionando em salas do Tribunal de Justiça, no Cambeba, quando a Esmec ainda buscava criar sua própria página na internet e precisava comunicar seus alunos por meio de ofícios e folders impressos, sem sequer dispor de um portal de educação a distância. “Certamente, como muitos de nós, pensaram em desistir, cansaram da labuta, tiveram dúvidas, hesitaram. Mas todos eles ficariam orgulhosos de ver que a semente que plantaram virou uma árvore forte, acolhedora e cheia de vida, onde a gente pode se reunir, trocar ideias, discutir, pesquisar e pensar juntos em soluções para os desafios do Judiciário e do Sistema de Justiça”.

A história da Esmec permanece viva e se renova a cada turma, a cada magistrada e magistrado, a cada servidora e servidor, a cada formadora e formador que deixam sua contribuição para a efetivação da missão da Escola. Em constante movimento, há quase quatro décadas a Esmec evolui na construção de um Judiciário mais qualificado, consciente e comprometido com a sociedade cearense.