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Prisões de mulheres crescem 500% no CE

Publicado em: 16-11-2010

15.11.2010 cidade

Transporte de drogas por estrangeiros aumenta no Ceará e desponta para o descontrole do crime

Em um ano e seis meses, a população carcerária de estrangeiras passou de sete para 42 mulheres. No Presídio Feminino Auri Moura, esse período representa num aumento superior a 500%, sendo que as sentenciadas são disparadamente por conta da modalidade praticada por mulas. Ou seja, pessoas pagas para transportar drogas ilícitas de um País para outro.

A diretora do Auri Moura, Socorro Matias, observa que esse é um dado sintomático de como o narcotráfico internacional não apenas cresceu, usando Fortaleza como entreposto para a Europa, sobretudo, como ainda tem se especializado na utilização de mais mulheres nessa atividade criminosa.

Apesar do nome pejorativo, a própria direção do sistema carcerário do Estado é a primeira a reconhecer que não se tratam de presos, quer sejam homens ou mulheres, com alto grau de periculosidade. O perfil segue sendo de pessoas provenientes de países pobres, quer da África, Leste Europeu e América do Sul.

No entanto, são as presas que chamam a atenção das autoridades pelo aumento progressivo. Socorro diz que é o grupo ainda mais utilizado pelas máfias de traficantes, principalmente considerando aquelas mais pobres e que veem no transporte de drogas como uma forma de subsistência para si e a família.

“Nosso perfil de presa, em sua maioria, são aquelas que foram flagradas transportando substâncias tóxicas no aeroporto. Em geral, são mães e enveredaram no crime, a fim de prover os familiares ou para resolver pendências financeiras urgentes”, afirma a diretora do presídio feminino.

No presídio masculino, especialmente o Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira (IPPOO II), dos 40 presos estrangeiros, apenas um, de origem peruana, não se enquadra no artigo 33, da lei 11.343, de 2006, que trata do combate às drogas entorpecentes.

O diretor adjunto Edmar de Oliveira Santos verifica a mesma situação de pobreza e abandono de familiares entre os estrangeiros presos como mulas. O próprio presídio teve que se moldar no acolhimento de presos nessa qualificação, uma vez que a população carcerária aumentou significativamente.

Enquanto que em 2008 havia 12 homens, o número atual gira em torno de 40. No entanto, observa que há a particularidade que o presídio passou a acolher presos de outras unidades carcerárias, inclusive das casas de custódia, centrando todos os acusados de tráfico no IPPOO II.

“Houve o entendimento de que os estrangeiros reunidos num só local seria positivo para eles próprios, que passariam a conviver com pessoas de nacionalidades diferentes ou iguais, mas com mesma situação jurídica, o que é positivo na compreensão da Justiça brasileira”, disse Edmar de Oliveira.

Além de notar a situação de penúria desse público, também reconhece que há a necessidade de se contar com unidades específicas para acolher esse tipo de criminoso. Ele também concorda que o mula não representa ameaça à sociedade.

Fique por Dentro

Sistema perverso

Embora o tráfico de drogas seja considerado crime hediondo, há quem queira dar um tratamento diferenciado aos “mulas”. Isso se dá porque são réus primários e a convivência do presidiário leva a aprendizagem de outras modalidades criminosas. No caso das mulheres, ficam longe da família durante anos e enfrentam preconceito ao tentar retornar à vida normal. Por tanto, tem aumentado o apelo de autoridades no sentido de se criar unidades específicas para esse tipo de crime, que impõe um sistema carcerário perverso.

CRIME DE TRÁFICO

Aumento tem sido de 20% ao ano, segundo a PF

O crescimento do tráfico de drogas por mulas é estimado em 20% ao ano. Isso resulta em até um flagrante por semana no Aeroporto Internacional Pinto Martins, de Fortaleza.

Há meses, que se registra apenas um flagrante. Mas na crônica policial essa é a exceção que somente tem confirmado a regra de um crescente fluxo do tráfico no Ceará.

Para um delegado aposentado da Polícia Federal, que não quis se identificar, a tendência é que essa modalidade criminosa cresça cada vez mais, em vista dos riscos de perdas serem menores para os grandes traficantes. “O que notamos é que no passado havia grandes prejuízos, quando os flagrantes chegavam até uma tonelada de cocaína. Hoje, se dissipando em “mulas” os casos de flagrantes giram em torno de um a dois quilos, o que é irrelevante comparando com a droga que saí”, afirma.

MONITORAMENTO

Guiana se destaca na rota para Fortaleza

A rota do tráfico não tem mistério para a Polícia Federal. Boa parte da droga que sai do Brasil com destino a Europa ou Estados Unidos provêm de São Paulo. No entanto, vêm também se repetindo os casos de pessoas que chegam ao País pela Guiana, ex-colônia inglesa.

O roteiro do tráfico passa por várias capitais brasileiras até a droga sair do Brasil com destino aos países europeus e aos Estados Unidos.

Longa viagem

Nesse caso específico, o roteiro começa em Georgetown, Capital da Guiana. Numa longa viagem por uma estrada de piçarra se chega a Lethem, já na fronteira daquele País com o lado brasileiro. Com a travessia a barco pelo rio Katu, finalmente se atinge o lado brasileiro, na cidade de Bonfim, em Roraima.

De lá, é feita uma viagem de ônibus até a Capital, Boa Vista e, em seguida, mais uma outra de avião. Dessa vez, com destino a Manaus. Finalmente, de Manaus se chega a Fortaleza, onde se conta com um aeroporto internacional e voos diários para a Europa.

Na Capital cearense, o transportador se hospeda em hotéis baratos e discretos. Na cidade, é feito contato com uma das pontas da rede do tráfico para receber a droga. Os valores de pagamento, caso não haja nenhum imprevisto, variam de R$ 2 mil a 30 mil reais, dependendo do volume da encomenda.

Como a droga é acondicionada as mais diversas variações, desde os casos de ingestão de cápsulas, que ficam retidas no estômago até disfarces em bagagens. A ingestão de cápsulas não tem sido a prática mais comum, tanto porque o máximo de transporte se chega a um quilo e ainda pelo fato de ruptura, que tem levado à morte e uma complexa estrutura de monitoramento dos mulas até que as películas gelatinosas, contendo tóxicos, sejam expelidas.

O advogado português Mário Gomes não escondeu o fato de já ter ganho muito dinheiro na defesa de traficantes. “Havia situações esdrúxulas envolvendo essas pessoas. Algumas ingeriam as cápsulas, conseguiam sair do Brasil, mas quando chegavam na Europa eram “roubados” por outras quadrilhas de traficantes”, contou Gomes.

Na quadrilha, conforma lembrava, havia sempre uma pessoa para “vigiar” a mula, enquanto expelia as películas, “porque havia um risco dessas pessoas serem subtraídas na briga das quadrilhas”, contou.

Para o policial aposentado, que pediu para não ser identificado, o modus operandi das quadrilhas internacionais de drogas continua sendo eficiente, porque é difícil numa blitze nos aeroportos, no caso o Internacional Pinto Martins, se fazer uma investigação nas malas de mais de 200 passageiros de um voo. “Isso é praticamente impossível. Iríamos atrasar a decolagem dos aviões e isso representa em multas”, afirma

MARCUS PEIXOTO
REPÓRTER